Il Buco: Itália a dois passos do Príncipe Real
Mario Rossi atravessou a Europa para se instalar em Lisboa e abrir o restaurante italiano que todos estávamos à espera.
Escondido numa rua discreta do Príncipe Real, o Il Buco impôs-se rapidamente como um dos melhores restaurantes italianos da Península Ibérica. Aberto há dois anos por Mario Rossi — antigo segundo de cozinha de uma trattoria milanesa com estrela Michelin — este endereço intimista tornou-se uma referência incontornável para os amantes da cozinha italiana autêntica em Lisboa.
Ao empurrar a porta, somos imediatamente envolvidos pela atmosfera: paredes em pedra à vista, toalhas de linho branco e o aroma irresistível de manjericão fresco e parmesão a escapar da cozinha aberta. A sala é pequena — mal chega a vinte lugares — o que obriga a reservar com bastante antecedência, mas garante também um nível de atenção e cuidado que os restaurantes maiores raramente conseguem oferecer.
Uma Carta que Respira Itália
A carta, curta e focada como deve ser, muda completamente todos os meses, ao ritmo das estações e das chegadas do mercado. Mario Rossi afirma com simplicidade: "Só compro o que eu próprio teria vontade de comer esta noite." Esta filosofia direta traduz-se num honestidade desarmante no prato.
Abrimos a refeição com uma burrata cremosa acompanhada de tomates assados durante duas horas no forno, um fio de azeite extra-virgem siciliano e algumas folhas de manjericão fresco. Um clássico executado com uma precisão que lembra que as receitas simples são as mais difíceis de dominar.
O ponto alto da noite foi sem dúvida as pappardelle com ragù de vitela. A massa, feita à mão todas as manhãs, tem uma textura sedosa e ligeiramente resistente que absorve perfeitamente o molho. O ragù — perfumado com alecrim e um toque de vinho branco seco — é rico sem ser pesado. É o tipo de prato que se come devagar, com quase pena que acabe.
Uma Adega Italiana Rigorosa
A carta de vinhos merece atenção especial. Mario reuniu cerca de cinquenta referências exclusivamente italianas, com uma clara preferência por pequenos produtores naturais: tintos expressivos da Sicília, brancos de mineral notável do Friuli, e algumas raridades da Campânia impossíveis de encontrar noutro sítio em Lisboa. A nossa escolha recaiu sobre um Vermentino di Sardegna que acompanhou a burrata com elegância.
O serviço é assegurado por Giulia, companheira de Mario e antiga sommelier. Conhece cada garrafa ao pormenor e as suas recomendações são sempre certeiras — conhecedoras sem serem pretensiosas.
A Sobremesa: O Teste Final
Na sobremesa, o tiramisu tradicional — sem modificações nem modernizações desnecessárias — é uma declaração de intenções. Creme de mascarpone aéreo, café forte bem embebido, cacau amargo de qualidade. Sem framboesa para efeito visual, sem gel acidulado para dinamizar. Apenas a receita, executada na perfeição. Esta contenção lembra que a simplicidade é frequentemente a forma mais elevada de sofisticação.
Terminámos a refeição com um pequeno copo de Amaro del Capo oferecido pela casa — uma atenção que convida ao regresso.
A Conta e o Nosso Veredicto
Conte entre €45 e €55 por pessoa com uma garrafa de vinho. Uma refeição que vale cada euro — a qualidade dos produtos e o cuidado dedicado a cada preparação justificam plenamente o valor.
O nosso veredicto: O Il Buco é uma visita obrigatória para quem procura cozinha italiana genuína em Lisboa. Mario Rossi conseguiu transplantar o seu saber-fazer milanês para a capital portuguesa sem perder uma gota de autenticidade. Reserve com muita antecedência — várias semanas no mínimo em época alta — e peça as pappardelle de olhos fechados.